11/08/2020 às 21:51 Arte, cultura e sociedade

Brasil e a cruzada pelo empobrecimento da cultura nacional.

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Agosto chegou, e como era de se esperar, nos trouxe ainda mais tormentas oriundas no governo Bolsonaro. Agora, mesmo em meio à iminência de uma cirurgia para remover um câncer de tireoide, ainda me preocupo com as palavras do Ministro da Nobreza: Paulo Guedes. Paulo Roberto Nunes Guedes, aparentemente, é adepto da ideia de que os livros também devem ser objeto de consumo direcionado apenas àqueles que nasceram em berço de ouro. 

Apesar de privilegiada, não é o meu caso. Não reclamo da vida, nasci de uma mãe funcionária pública e um pai autônomo que sempre pagaram escola particular, sempre tiveram carro, casa própria e nos deram bastante estímulo para estudar. Para mim, foi nessa escola, um colégio pequeno de periferia, onde minha história com os livros começou. Havia uma pequena biblioteca, de livre acesso aos alunos. Todos os dias eu estava lá, lendo orelhas e contra capas de livros para escolher a leitura do dia ou dos próximos dias. Lia praticamente um livro por dia, e isso é um privilégio até hoje. Poucos são os que têm essa sorte. Mesmo assim, até para mim comprar livros tornou-se um evento raro. Temos outras demandas financeiras na frente. Imagino então, para os alunos de escola pública, para aqueles que entraram na faculdade como bolsistas e cotistas, para aqueles que dependem de doações para estudar.

Claramente Paulo Guedes não conhece essa realidade. Porém, para mim, a decisão de taxar os livros é ainda mais dura e cruel. Ela parte do interesse de retirar da população qualquer atividade que lhes instigue a pensar. Porque somos tão críticos ao governo Bolsonaro? Porque sabemos o que vem com ele. Porque estudamos o que de similar aconteceu antes, porque conhecemos o fascismo, porque sabemos as origens do racismo que tenta se fortalecer com ele, porque pessoas como eu, que nasceram, cresceram e têm raízes na periferia, sabem que em governos assim é aqui na periferia que a penumbra vem parar.

Vivemos, desde janeiro de 2019, um desmonte absurdo na cultura nacional, e essa é uma das armas do bolsonarismo contra o pensamento crítico. Nosso Ministério da Cultura deixou de existir, se tornando uma mera secretaria, e ainda subordinada ao Ministério do Turismo - o que não faz sentido, considerando que a cultura como espaço de reflexão não tem conexão com o turismo. O nosso Instituto do Patrimônio Histórico Artístico e Cultural já teve como coordenadora, no governo Bolsonaro, até mesmo uma blogueira que não possui nenhum curso superior.

Temos uma descarada abertura de espaços democráticos culturais para conservadores e religiosos extremistas, e isso é destruição da cultura. Uma cultura que há muito já pena para sobreviver. Enquanto na Europa vemos filas nos museus, inclusive compostas por brasileiros, aqui os museus pegam fogo e ninguém lamenta.

Que Bolsonaro e seus pares sempre preferiram a bala ao conhecimento, isso nunca foi velado. No período de três semanas, o governo inicia um movimento para que Chico Buarque de Hollanda se torne raridade em casas onde machões empunham armas aos gritos de “Supremo é o Povo”. A justificativa: livros são itens elitistas.

Se Guedes, o especialista em usar dados cujas fontes são as vozes na sua cabeça, quer taxar produtos elitistas, faço questão de lhe apresentar ao iate, ao jetski, às grandes fortunas e ao jatinho. O ministro quer encher o país de consumidores alienados, de mão de obra barata, de pobreza submissa, e não de gente inteligente, com visão crítica pra encher o seu saco e o saco do “mito”.

Bem, não era de admirar que tal hora a cruzada contra o conhecimento se impacientasse e resolvesse atacar os nossos amados livros. Caso ninguém tenha notado, eu fiz questão de observar, nos debates, nas lives, nos programas transmitidos de casa, todos aqueles com uma mínima capacidade crítica e discernimento do que acontece em nosso país, tinha livros atrás de suas figuras na tela no computador ou do celular. Do lado negro da força? Estantes vazias ou com livros de Olavo de Carvalho. Em 2016, uma pesquisa apontou que 44% da população brasileira não lê livros e 30% nunca comprou nenhum livro.

Mas, afinal, quem se importa?

Seja bem vindo ao país do “e daí”.

11 Ago 2020

Brasil e a cruzada pelo empobrecimento da cultura nacional.

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