17/04/2021 às 23:50 Arte, cultura e sociedade

O arroz está caro porque a vida do pobre melhorou.

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Certa vez conheci uma pessoa que pensava exatamente assim. Abria a boca para soltar pérolas como “não tem empregado que preste por causa do bolsa família” ou “pobre é preguiçoso”. Essa pessoa andava de BMW, viajava ao exterior pelo menos 6 vezes ao ano, morava em uma casa de mais de um milhão e, não, não tinha a menor noção da realidade, simplesmente por não precisar vivenciá-la. Considero-a inocente por isso? De maneira nenhuma. Há certos tipos de cegos que o são por escolha. Ela era assim. Não queria enxergar porque era muito mais cômodo continuar vivendo em seu mundo de luxo e preconceito.

Nasci e cresci na periferia. Conheço muitas pessoas que recebem bolsa família. Nenhuma delas jamais deixou de trabalhar por isso. Será que é possível viver do auxílio governamental? Basta uma ida ao supermercado ou ao mercadinho do seu bairro pra saber que não.

A realidade, a dura realidade, é que a desigualdade social no brasil voltou a ser um abismo gigante entre ricos e pobres. Tínhamos cerca de 13,4 milhões de brasileiros desempregados no ano passado, período cuja taxa de desemprego bateu recorde, de 13,5%. Os dados são da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), a pandemia está causando um aumento sem precedentes nos níveis de pobreza na América Latina. Em relatório divulgado no início de março de 2021, a América Latina registrou em 2020 22 milhões de novos pobres, totalizando 209 milhões de indivíduos em situação de pobreza. Destes, 78 milhões estão em extrema pobreza, 8 milhões a mais do que em 2019, segundo o relatório "Panorama Social da América Latina 2020.

A estimativa da agência é que a taxa de pobreza está em 33,7% da população e a de pobreza extrema atingiu 12,5%. Os números são os piores registrados nos últimos 12 e 20 anos, respectivamente. Em contrapartida, a lista de bilionários da Forbes ganhou 20 brasileiros e teve crescimento recorde na pandemia. Perdoem pela citação, mas a música de 1999 já dizia: “é que o de cima sobe, e o de baixo desce”. Enquanto cresce o número de pessoas que não têm o básico para viver, cresce também o acúmulo de riquezas nas mãos de uma minoria. O número de brasileiros bilionários cresceu de 45, em 2020, para 65 agora.

No total, os brasileiros bilionários têm patrimônio conjunto de US$ 291,1 bilhões (R$ 1,6 trilhões), contra US$ 127 bilhões (R$ 710 bilhões) no ano passado. Os R$ 1,6 trilhões detidos pelos 65 brasileiros juntos equivalem a uma fortuna aproximadamente igual a um quinto da riqueza econômica gerada no Brasil em um ano. Em 2020, o Produto Interno Bruto do Brasil foi de R$ 7,4 trilhões.

Paralelamente, cresce o índice de desigualdade e o número de pessoas na linha da pobreza. A população abaixo da linha da pobreza triplicou: são 27 milhões de brasileiros, e o cenário da fome no Brasil o pior em décadas. 12,8% da população brasileira está abaixo da linha de pobreza. O levantamento, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), também aponta que muitas famílias tentam sobreviver com R$ 246,00 por mês. É uma mudança econômica e social gravíssima.

O Brasil deixou o Mapa da Fome (levantamento feito e publicado pela ONU - Organização das Nações Unidas - sobre a situação global de carência alimentar) em 2014, com o amplo alcance do programa Bolsa Família – estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) baseado em dados de 2001 a 2017 mostrou que, no decorrer de 15 anos, o programa reduziu a pobreza em 15% e a extrema pobreza em 25%. Hoje, Daniel Balaban, representante no Brasil do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (WFP) e Diretor do Centro de Excelência contra a Fome, projeta que o Brasil esteja próximo dos 9,5% de sua população com subalimentação. Sem uma política em longo prazo contra a fome, o risco de insegurança alimentar é permanente. Sem uma política real, ampla e acessível.

Sempre que preciso sair de casa, observo o quanto o número de pessoas nas ruas aumentou. Não apenas pessoas pedindo ajuda e alimentos, mas também pessoas dormindo nas ruas, sob viadutos. O país está afundando, e ninguém se agarra a R$90 reais de bolsa família para não trabalhar. Acreditar que um pai ou mãe de família honesto, que luta para que os filhos tenham uma vida melhor, é capaz de se acomodar com um auxílio de R$90 ou R$150 reais, é um claro exemplo de narcisismo, egoísmo e egocentrismo. É estar muito, muito encerrado no próprio mundo, para ser incapaz de sentir a dor da fome que assola a vida alheia. O Brasil está pedindo socorro, e o governo está mais preocupado em deixar passar a boiada ou garantir a eleição de 2022 do que em garantir que as pessoas não morram pela ausência do básico.

Certa vez, li que “entre um governo que faz o mal e o povo que consente, há certa cumplicidade vergonhosa”. A frase é de Victor Hugo e me remeteu exatamente ao que acontece, hoje, no Brasil. Um governo pouco preocupado com os que morrem de fome ou de doença, e um povo dividido: uma parte está preocupada com a própria conta bancária, a outra enxerga o que acontece e não faz nada. A última, minoria, faz o que pode. É uma minoria fundamental, mas que precisa de força para crescer e fazer a diferença que o governo não faz. Se continuarmos assim, teremos cada dia mais um povo cúmplice desse verdadeiro genocídio, pandêmico e social, quase como uma medida de controle populacional, que vivenciamos.

Sim, controle populacional e, ouso dizer, social. A verdade é que filho de empregada que tem chance de cursar Direito ou Enfermagem, não teria interesse em dirigir uma BMW pra um rico. A filha que faz curso de inglês e estuda contabilidade não vai querer lavar as calcinhas da patroa. O arroz não está caro porque a vida do pobre melhorou. Está caro porque a do rico melhorou, e porque o pobre precisava ser subjugado novamente.

17 Abr 2021

O arroz está caro porque a vida do pobre melhorou.

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