01/05/2021 às 21:25 Devaneios

"Câncer"

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“Câncer”, palavra tenebrosa. Do Michaelis, "quarta constelação do zodíaco, situada entre Gêmeos e Leão; Caranguejo; Quarto signo do zodíaco (de 22 de junho a 23 de julho). O trópico do hemisfério setentrional. Denominação comum aos caranguejos do gênero Cancer, da família dos cancrídeos, com várias espécies comestíveis, de grande importância comercial. Doença que se caracteriza pelo crescimento autônomo, incontrolável de células de um tecido ou órgão e que pode ressurgir, criando focos secundários, com as mesmas características das iniciais; carcinoma, tumor maligno”.

Desde de 2016, de certa forma, eu me preparava pra isso. Os nódulos da tireóide e suas calcificações não me eram muito simpáticos, sabe? Mas o medo dessa palavra permeia minha vida desde a infância. Minha segunda avó materna faleceu de câncer no ano em que nasci. É como um vilão que levou de mim alguém que sempre amei, antes que eu pudesse conhecê-la como gostaria.

Em 2020 veio o diagnóstico. Primeiro exame em julho, US suspeito, e eu já com a certeza de qual seria o diagnóstico final. Levei a um especialista, mas o nódulo era tão pequeno, tão improvável de ser qualquer coisa de ruim, que nem era preciso fazer punção - era tão pequeno que talvez nem fosse possível! Insisti, deixei claro que não ficaria tranquila. Pago plano de saúde pra isso, né? Fiz a punção, uma semana depois a confirmação. Era preciso remover o lobo comprometido da tireóide. Cirurgia simples, e feita por um excelente médico, diga-se de passagem. “Não se preocupe, é impossível ter algo mais”. Mãe ansiosa, pai ansioso, meu irmão nervoso do outro lado do país, namorado chorando na sala de espera e minha irmã, médica, encarou a sala de cirurgia comigo. Pra quem não sabe, minha avó de coração, que citei no início, é mãe de coração de minha mãe, que tem 5 irmãos de coração, uma delas minha tia e madrinha, cuja filha cresceu comigo e, assim como minha mãe e minhas tias se consideram irmãos, ela há muitos anos que é mais que sangue do meu sangue.

Cirurgia rápida e rasteira, mas com surpresas. Um linfonodo escondidinho com uma cara esquisita. Vai pra biopsia. Aline vai pra casa. Vem a biopsia, metástase. Tem que retirar o resto da tireóide. “Mas com certeza é só isso, viu, não tem chance de ter mais nada não, é um câncer muito pequeno”. Novos exames, novas surpresas. Metástase em linfonodos do lado direito. Lá vamos nós para uma cirurgia “um pouco maior”. Tireoidectomia total + esvaziamento cervical total do lado direito foi a recomendação. Mesma apreensão, eu muito mais nervosa, não com medo do durante, mas do depois. Irmã na sala de cirurgia. Namorado na sala de espera. Família em casa pedindo notícias. Pandemia, hospital de novo, aquele cheiro de éter. Vem anestesia. Ainda sinto o tubo começar a entrar na minha boca. Apago de vez.

Acordo com o pescoço muito dolorido. Ombro dolorido. Uma sensação esquisita abaixo do queixo, sangue no cabelo, não consigo falar direito. Náusea forte, assim como na primeira cirurgia, efeito da anestesia, da intubação etc. Carrego um dreno no pescoço. Se a primeira cirurgia eu levei melhor do que pensei, na segunda o mau humor tomou conta. A dor predominou, a raiva pela comida sem gosto do hospital. Chorava por nada, tadinha da minha mãe, no dia em que foi ficar lá comigo só me viu dormir, chorar e me irritar. Mas, acreditem, tinha motivos de sobra pra isso.

Alguns dias depois, finalmente a alta. Mas não sem mais uma surpresinha. Estava com um dreno no pescoço, de novo. Assim como o primeiro, achei que sairia facinho! Que nada. Lá vem a enfermeira, corta os pontos. Puxa um pouco, uma gastura da peste na garganta. Não acabou ainda. Mais uma longa puxada, e ele sai. Tive a sensação de que ele tava do pé até o pescoço. Casa. Longos dias de dor até pra levantar, muito inchaço, o corpo tentando entender a ausência da tireóide, a ausência de uns 18 linfonodos e toda aquela agressão que rolou. Como disse meu médico “eu fiz isso pra lhe curar, mas seu corpo entendeu como uma tentativa de assassinato”.

7 dias depois, nada de o inchaço melhorar. Vou para o retorno, ouço que o inchaço não é normal. Surpresa? Claro! Tudo de incomum eu tive. Um nódulo minúsculo que não deveria ser câncer e era, que não deveria ter metástase nem pra perto e tinha, que não deveria ter metástase pra “longe” e tinha. Agora, uma fístula, algo comum de acontecer quando se opera o lado esquerdo, mas um pouco mais raro quando se trata do lado direito. Punção no consultório, curativos compressivos em casa. Uma semana depois, nenhuma mudança. Corre pra UNIMED pra conseguir centro cirúrgico de emergência, mas os casos de COVID aumentaram e era o mesmo dia em que o plano tinha anunciado a suspensão das cirurgias eletivas. Diante da urgência, conseguimos. Segue pro hospital. Namorado acompanha. Irmã angustiada. Mãe em casa se preparando pra ir pro hospital. O médico, um anjo, me acompanhou da triagem até a entrada pra explicar todo o caso. Vamos pro centro cirúrgico, dessa vez com anestesia local.

Se tem uma coisa que me angustia é fazer procedimentos com anestesia local. Sei lá, algum tipo de gastura, de medo… Subiram o pano, não via nada. Vem anestesia. Chorava copiosamente. A enfermeira veio ficar comigo e tentar me acalmar. Abre a cirurgia, começa a drenagem. 5 minutos, fechado. Segue pra casa. Mais curativos compressivos. A fístula não fecha… Compra agulhas e seringas, vamos puncionando e esvaziando. Não vamos reabordar se não for obrigatório, é arriscado. Teria que ser operada sem jejum, o que traria um risco de aspiração pulmonar, ou sei lá qual é o nome, sei que era quase certeza que causaria pneumonia.

Puncionamos umas 3 vezes no consultório. Quase nenhuma melhora. Veio então a fono, que trabalha com pós operatório, usando bandagens compressivas. Meu médico conversou comigo e decidimos tentar. Combinei com a fono, ela faria tudo em casa. Prepara o ambiente, vem o médico, vem a fono, punciona em casa e logo em seguida coloca a bandagem. Foi algo em torno de dois meses nessa tentativa, entre novembro e dezembro. Puncionava, logo em seguida colocava a bandagem. Começou a reduzir, mas não dava pra fazer sempre. A bandagem começou a arrancar a pele, muito fina (pele melindrosa mesmo, pode dizer). Entre dias com e sem bandagem, foi no dia 23 de dezembro que finalmente só tinha 1ml no pescoço. De mais de 20 ml para 1ml. Só Deus sabe a felicidade que senti quando o médico disse. Depois de uma punção por semana, todas as quartas, seguidas das bandagens. Começava a ver meu pescoço como ele realmente era. Foi um tratamento experimental para fístula quilosa e vai virar até artigo acadêmico!

Problema resolvido, vem terceira batalha: radioiodoterapia. Não por ser uma terapia ruim nem nada assim, mas pela falta do iodo em decorrência da pandemia. Encontrei uma endócrino incrível, graças à minha oncologista, que é especialista em metabolismo e câncer de tireóide. Ela e meu cirurgião ficaram em contato e combinaram o iodo, mas não estávamos conseguindo onde fazer aqui em Fortaleza. A endócrino já pensava em me mandar pra outro estado, já que o recomendável é fazer a terapia até 6 meses depois da última cirurgia. Em janeiro, ela conseguiu uma vaga no IMC para março. Chegou março, faltou iodo. Remarca pra abril. Chega abril.

Tomei Thyrogen pra não interromper hormônio. Tomei uma dose pequena de iodo. Fiz a cintilografia. Nada de resultado ainda, só dia 30/04, Aline. No dia seguinte, 150mCi de iodo, uma dose considerada alta. Vem por uma janelinha num copo esquisito que parece vindo de Chernobyl. Abre a boca, engole e não fala com ninguém por 30 minutos, tá? Tomo. Corro pra casa e fico isolada por uma semana pra não ter perigo de passar radiação pra ninguém. 6 dias depois, nova cintilografia, mas nada de saber os resultados ainda.

Chega o dia 30, os resultados podiam ser entregues a partir das 14h. 13:59 eu estava no balcão. Recebo. Não tinha metástase para ossos ou pulmão. Tudo concentrado no pescoço. Envio os resultados para cirurgião e endócrino: ótimos resultados, está tudo no pescoço, agora vamos acompanhar de perto para garantir que está tudo bem mesmo. Se eu chorei? Quase. Mas já tinha chorado demais, preferi rir muito pensando na benção que é isso. A endócrino disse que eu deveria rezar muito e agradecer, se eu acredito em Deus (e eu acredito), já que por ter sido tão agressivo, é quase um milagre não ter espalhado mais.

Estou de alta? Longe disso. Exames de sangue de 3 em 3 meses, depois de 6 em 6 meses, cintilografias, US cervicais, consultas constantes, acompanhamento da reposição hormonal e do metabolismo. E assim seguirão os próximos 5 anos como paciente oncológica. No entanto, acredito, o pior já passou. Hoje tenho a cicatriz, uma dormência do lado direito da cabeça, no pescoço e uma sensação de formigamento. Mas é isso! Ah, Aline, mas e se tiver que operar o outro lado? Opera, ué.

Honestamente, peguei toda a grana que eu tinha e papoquei em ingressos da Disney e na viagem dos meus sonhos. Eu estando viva e bem pra chorar no Magic Kingdom, Animal Kingdom, Hollywood Studios, Epcot e, obvio, me debulhar no Expresso de Hogwarts na Universal e encher a cara de porcaria na Dedosdemel. Esses resultados, ter finalmente passado por mais essa etapa, é quase como comemorar aniversário menos de um mês antes da data oficial. Vou comemorar agora como posso e, tão logo quanto for possível, vou compensar todos esses meses de tratamento pirando muito nos lugares mais mágicos do mundo! É meu presente pra mim mesma - e de mamãe, que me deu boa parte das passagens ❤️ Disney, me espera que eu vou!

Se eu posso dizer uma coisa, uma única coisa sobre tudo isso, é: cuide da sua saúde. Eu jamais teria descoberto o câncer se não fosse a paciente chata que pede pra fazer exame de imagem junto com exame de sangue (os de sangue não apontavam nenhuma alteração). Faça checkup, faça seus exames, fique atente aos sinais do seu corpo, da sua saúde. O corpo fala, seja por exames, seja pelo seu próprio cérebro. O meu já me dizia o que ia acontecer, acredite ou não. Aprenda a ouvir o seu também. A medicina as vezes é um pouco medieval (mulheres que fazem exames ginecológicos anuais que o digam), mas é um privilégio termos a ciência, a medicina, médicos competentes e com vontade de ajudar.

Minha irmã me acompanhou com o maior amor do mundo. Meu médico fez punções semanais sem cobrar nada. Minha endócrino me liga pra saber como eu tô. Se você pensa que médico é tudo chato, que só quer te encher de remédio, você só não encontrou a pessoa certa ainda. Ah, e se quiser indicação de cirurgião de cabeça e pescoço, endócrino, oncologista, dermatologista, urologista (acompanho cálculo renal também, eu sou a mazelenta aqui de casa), dentista, generalista, ortopedista e ginecologista, manda um oi que eu indico (tenho meus “médicos de estimação, se eles mudarem o plano que atendem, eu sigo).

É isso. Se você leu até aqui, te desejo felicidade, saúde, muita saúde, e te agradeço por me ouvir/ler por tanto tempo. E se você tá passando por algo parecido, e quer conversar. Tô aqui também.

Salaam Aleikum.

Família, namorado, amigos, colegas de profissão, todos que dedicaram um minutinho pra rezar ou torcer por mim: obrigada!

Mãe, pai, Iago, Nat, Sabrina, Carol, Bella, João Paulo, tios, tias, padrinhos, Amanda, Carlos, Dr. Miguel, Dra. Cecília, Dra. Adriana, Dra. Cláudia, Tici, Carol Magalhães, Beth, Paulo, Camila, Ray, Renata e tantos outros que estiveram presentes.

01 Mai 2021

"Câncer"

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